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Joana e Pedro: como o coro paroquial de Braga os devolveu ao amor

By admin Mar 16, 2026 6 min read
Joana e Pedro: como o coro paroquial de Braga os devolveu ao amor

Ela tinha 58 anos e cantava há trinta. Ele chegou ao coro aos 64, viúvo há quatro. Um salmo de Schubert mudou duas vidas.

Abro com uma cena. Um sábado à tarde, final de outubro, dentro de uma sala de ensaio na Igreja dos Congregados, em Braga. Trinta e duas vozes a ensaiar o «Sanctus» de Schubert. O maestro pára, volta-se para os baixos: «Senhor Pedro, a segunda nota está meio tom abaixo.» Pedro, 64 anos, fica vermelho. Joana, 58, no naipe dos contraltos em frente, sorri discretamente. É a quarta vez nesse ensaio que ele falha a mesma entrada.

Ela não sabe ainda. Ele também não. Mas ali começa uma segunda vida amorosa.

Antes dela

Joana canta no coro paroquial desde os 28 anos. Divorciou-se aos 52, depois de 24 anos de casamento com um industrial têxtil do Vale do Ave. Uma filha adulta em Londres, advogada, dois netos. Joana manteve-se no coro durante todo o divórcio. «A música foi o único sítio onde eu não tive de explicar nada», disse-me. «Todos sabiam, ninguém perguntou. Cantar salmos aos sábados manteve-me inteira.»

Durante os seis anos depois do divórcio, Joana teve duas relações breves — uma com um professor separado, outra com um empresário viúvo de Guimarães. Nenhuma durou mais de nove meses. «Percebi, aos 57, que eu era uma mulher que gostava de estar sozinha, desde que a minha vida estivesse cheia. O coro, a filha, as viagens. Não precisava de marido. Mas, se aparecesse alguém que não me tirasse o que eu era, recebia-o com gosto.»

Antes dele

Pedro viveu 38 anos casado com a Alice, mulher firme e afável, professora do primeiro ciclo. Dois filhos, ambos em Portugal, em Aveiro e Lisboa. A Alice morreu aos 62, em 2020, com um cancro de pâncreas que levou oito meses.

«Os primeiros dois anos foram chão escuro», contou-me. «Eu tinha sido arquitecto, reformei-me aos 60 para cuidar da Alice durante a doença. Depois da morte dela, fiquei muito tempo sem saber o que fazer com as manhãs. Pintava uma casa de rabiscos, não terminava.»

Ao fim de três anos, os filhos insistiram que ele saísse mais. Pedro sempre gostara de música, mas nunca cantara. Uma tarde, em 2024, passou junto à Igreja dos Congregados e viu um cartaz: «Coro paroquial aceita novas vozes. Graves e baixos preferencialmente.» Entrou, sem planear, como se fosse visitar. A diretora, senhora Felismina, recebeu-o com um café e um teste de voz breve. «É um baixo», disse. «Precisamos mesmo. Venha no sábado.»

Foi como ele começou, aos 64.

Os primeiros meses

Pedro ficou seis meses atrapalhado. Não sabia ler pauta. As entradas falhavam. Os sábados eram uma mistura de vontade e vergonha.

«A Joana sentava-se no naipe dos contraltos, em frente aos baixos», disse-me. «Uma senhora elegante, cabelo curto, camisola cinzenta, óculos a descaírem um pouco. Ela olhava sempre no momento certo para o maestro. Eu observava-a, para tentar perceber quando era a minha entrada, porque eu perdia-me.»

«Num intervalo, num sábado de dezembro, ela veio ter comigo ao bar. ‘Senhor Pedro, posso dar-lhe um conselho? Quando a maestrina levanta a mão esquerda três batidas antes da sua entrada, é aí. Não espere ver o sinal exato — olhe para os três dedos dela.' Eu agradeci. No sábado seguinte, acertei as quatro entradas. Olhei para ela do outro lado da sala e ela piscou-me o olho.»

O café depois do concerto

O coro faz um concerto de Natal tradicional em Braga, na Sé. Em dezembro de 2024, o concerto foi a uma sexta à noite. No fim, parte do coro saiu para jantar num restaurante perto da Praça da República.

«Foi o acaso», disse a Joana. «Havia uma mesa de doze. Havia dois lugares vagos. Um ao lado do outro. Eu sentei-me, ele sentou-se. Conversámos sobre Schubert durante duas horas, como se os outros dez não estivessem ali. No fim, ele acompanhou-me ao carro, que estava estacionado na Avenida Central. Despedimo-nos sem drama. Mas eu sabia que algo tinha começado.»

Os sete meses seguintes

Entre dezembro e julho do ano seguinte, Joana e Pedro desenvolveram uma amizade que, para toda a gente à volta, parecia romance, mas que eles próprios não nomearam.

«Foi muito importante não termos pressa», disse o Pedro. «Eu ainda estava a construir a minha vida depois da Alice. A Joana tinha medo de repetir relações que falharam. Fizemos o contrário do que toda a gente ia dizer-nos — demorámos.»

A viagem que mudou tudo

Em junho de 2025, o coro organizou uma viagem de três dias a Santiago de Compostela. Setenta pessoas, autocarro, dois hotéis. Joana e Pedro partilharam mesa ao pequeno-almoço nos três dias.

«Na segunda noite, depois do jantar, a Joana disse-me: ‘Pedro, eu sei que isto que temos não se chama amizade. Podemos parar de fingir?' Eu respirei fundo. Disse-lhe: ‘Joana, eu tenho 64 anos, sou viúvo, e não sei bem como se faz isto. Mas eu também sei. Podemos tentar?' Abraçámo-nos. Chorámos os dois. Parece ridículo. Foi o melhor momento dos últimos anos da minha vida.»

Hoje

Hoje, dez meses depois dessa noite, Joana e Pedro vivem em casas separadas em Braga. Vêem-se quatro a cinco vezes por semana. Passam os fins de semana juntos, com ensaios do coro. Os filhos de ambos já se conheceram, com cautela, e a coisa caminha.

Eles continuam no coro. Sentam-se do mesmo lado da sala, agora, o que irritou um pouco o maestro no início porque altera o equilíbrio do naipe. Mas ninguém teve coragem de lhes pedir para mudarem.

O que eles me pediram para partilhar

A Joana disse: «Nunca procurámos. Estávamos os dois a fazer uma coisa que amávamos — a música — e apareceu alguém. Não foi porque eu era bonita nem porque ele era rico. Foi porque ele falhava a mesma nota quatro vezes e eu tive paciência para o ajudar.»

O Pedro disse: «Diz às pessoas que voltem aos sítios onde amam estar. Não aos sítios onde procuram amor. A diferença é enorme.»

Um pequeno passo prático

Se sempre teve curiosidade por um coro, mas pensava que precisava de saber música, pare. Quase todos os coros paroquiais e municipais em Portugal aceitam iniciantes. Em muitas cidades, há também coros laicos seniores — na Casa da Música no Porto, na Fundação Gulbenkian, em pequenas coletividades locais.

Amanhã, consulte o site da paróquia da sua zona, ou da junta de freguesia. Pergunte: «Há coro? Aceitam novas vozes?» A resposta costuma ser sim.

Se quem estiver lá não for a pessoa certa, leva para casa o hábito de cantar. E isso, por si só, já é suficiente para justificar o sábado.

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